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quinta-feira, agosto 23, 2012
Resiliência
No final, o que importa mesmo é ter Resiliência para recomeçar e tentar de novo e de novo, e de novo...
domingo, julho 31, 2011
Inveja preta
Sempre gostei do Yamandu Costa e reconheci seu virtuosismo muito acima da media, totalmente fora da curva. Mas antes, ainda que genial, ele fazia um som meio sujo, quase sempre exagerando nas notas, como se quisesse mostrar a todo minuto que ele era excepcional. Isso me tranqüilizava: um cara genial, mas tinha uns senões.
De uns tempos para cá, como era aliás de se esperar, ele amadureceu muito sua interpretação, está mais econômico, preciso e simpático. Virou agora um músico espetacular e admirável em todos os sentidos. E por isso mesmo eu tenho uma vontade enorme de quebrar todos os dedos de suas mãos... com todo carinho, claro. Inveja preta desse desgraçado...
De uns tempos para cá, como era aliás de se esperar, ele amadureceu muito sua interpretação, está mais econômico, preciso e simpático. Virou agora um músico espetacular e admirável em todos os sentidos. E por isso mesmo eu tenho uma vontade enorme de quebrar todos os dedos de suas mãos... com todo carinho, claro. Inveja preta desse desgraçado...
segunda-feira, janeiro 03, 2011
terça-feira, dezembro 28, 2010
Crie sua rádio
Tem uma rádio de internet para os apreciadores de Jazz bastante interessante: chama-se AccuJazz. Como qualquer outra rádio streaming, você tem canais e filtros que permitem ouvir um enorme rol de músicos e composições, selecionadas aleatoriamente, respeitando os filtros do canal. O que me chamou a atenção é que você pode excluir um determinado artista durante a execução, de forma que ele não aparecerá novamente em sua rádio. Um jeito inteligente de customizar a execução e permitir que você transforme sua própria rádio em algo cada vez mais previsível, repetitivo e chato. Nada mais cansativo do que nossa própria intenção musical. Genial (ou não).
quarta-feira, outubro 13, 2010
Se pelo menos tivesse sido o Chip's...
Ontem, em pleno feriado, paguei um mico. Por volta das 16hs, estava no meu carro, na Av Birgadeiro Luis Antônio, indo em direção à Paulista. Eu queria atravessar a avenida em direção ao centro e, alguns metros antes da travessia, o sinal ficou amarelo.
Eu, brasileiro, solteiro, metido a malandro, achei que era safo e tentei "aproveitar o sinal". No meio do cruzamento, que é longo, os carros que vinham do Paraíso começaram a se mover e eu percebi que não conseguiria concluir a travessia, fazendo uma brusca virada à esquerda, na própria Paulista.
Como malandro só se dá bem no morro, no presídio ou no Congresso, e eu não pertenço a nenhum destes grupos profissionalizados de bandidos, tive um destino diferente. Logo atrás de mim, duas motos de policiais deram sirene e sinal para eu encostar. Quando já estava na faixa da direita, abri o vidro e recebi ordens para encostar no próximo bolsão, depois do ponto de ônibus.
- Documento do carro e carteira de habilitação.
- ...
- Sr. Marcio, o senhor já teve problema com a Polícia antes?
- Não, nunca.
- Desça do carro, por favor.
Ele me pediu para ficar longe do veículo, perto da grade de um portão. Pela primeira vez, me senti um desses sujeitos que são revistados na calçada. Não sei se porque sou caucasiano, mas o policial não chegou a me revistar, somente fez verificações dos meus dados pelo rádio. Não havia nada de errado, nem no carro, nem histórico na minha carteira, nem nada que fosse suspeito.
- ...
- Eu nem preciso dizer pro senhor o que o senhor fez, não é mesmo?
- Não. Eu sei que errei. Fui querer tentar "aproveitar o sinal" e...
- Por 10 segundos o senhor podia ter feito muita bobagem. Causado acidente, matado alguém. O carro é uma arma. Podia ter derrubado eu e o meu colega, atropelado um pedestre...
- ... Me multa e me deixa ir logo - pensei (sempre em itálico).
- Eu pedi pro senhor descer do carro porque é comum as pessoas que estão com carros furtados fugirem da gente no sinal. Mas não foi isso.
- ... Não foi, eu não roubei o carro, só quis economizar tempo e dei azar.
Enquanto eu ouvia o John me passar o sabão, o Poncherello, já com meus documentos na mão, preenchia um talonário de multas. E ele já estava há uns 10 minutos fazendo a ocorrência. Demorava tanto que já deixava o colega sem assunto, uma vez que este logo percebeu que eu não era mau elemento, apenas um cidadão de bem que havia feito uma cagada (graças a Deus, sem maiores consequências).
- O senhor viu esses dias o que aconteceu na TV? Com um sujeito que roubou um carro e fugiu da polícia?
- Não, não vi. O que foi? Me conta porque da próxima vez eu já sei como fugir...
- O sujeito atropelou dois policiais motorizados, depois continuou fugindo, atropelou mais dois policiais de moto, entrou na contramão, bateu em outro carro de polícia, e só parou porque ficou prensado contra um ônibus...
- Nossa, alguém se feriu? Melhor eu continuar sendo simpático. O que eu não preciso é causar emoções fortes ou demonstrar impaciência diante de um fato relevante para o oficial.
- Só escoriações leves...
- Tem gente que é tão do mal que não quer se entregar...
- ... Pois é, não desiste!
Enquanto o John improvisava e fazia sala para mim, em plena Paulista, o animal do Poncherello continuava olhando enigmático para o talonário. O que existe de tão desafiador naquele preenchimento?? E o homem-da-lei prosseguia na sua tentativa de puxar papo.
- Aqui na Paulista é muito perigoso em dia de feriado.
- É mesmo? Por quê? Bom, pelo menos você já viu que eu não sou bandido. Agora quer aliviar. Tudo bem, fiz cagada mesmo, tenho que aguentar quieto. Mas não pense que eu vou pedir pra dar um jeitinho, que eu assumo minhas merdas. Pede lá pro Poncherelo agilizar, vai...
- Tem muito turista, muita gente passeando, achando que como é feriado tá tranquilo. Os garotos sobem lá de baixo, do que seria uma favela, digamos, e sabem que são de menor, que não podem ir presos, aí passam aqui de bicicleta ou de skate e "batem" celulares, carteira, máquina fotográfica.
- Caramba... Porra, Poncherello, tem jeito?...
O Poncherello deve ter tido problemas na escola e não deve ter concluído a alfabetização. Porque não é possível que para copiar a porra da placa, um nome, e fazer um "X" em duas infrações gravíssimas o cara precisasse de tanto tempo. Mas precisava. E foi aí que eu percebi a capacidade de improvisação que a Corporação desenvolve em seus oficiais.
- O clima tá muito estranho, já era pra estar mais quente. O ser humano faz as coisas e acaba vendo as consequências...
- É, é o aquecimento global. O clima tá diferente mesmo. Quer dizer, agora eu vou ter que ouvir comentários sobre as intempéries vindo do narciso-vernize-de-farda. Multa, mas não fode...
- O verão já não foi verão direito, agora o inverno não termina...
- ... E a bicha-alada do seu amigo Poncherello aprendeu a escrever com o Tiririca, porque já faz 15 minutos que o animal de tetas está tentando me autuar e não acaba! É o tempo tá todo louco mesmo...
Finalmente, o Poncha recebeu uma luz de habilidade grafológica, talvez pela alma do Saramago que estivesse passando pela Paulista, e se aproximou com o talonário. Mas foi o John mesmo que fez as honras.
- Sr. Marcio, o senhor não é obrigado a assinar essas infrações.
- Tá louco! Se eu não assinar, é capaz do Poncherello ter que preencher meu endereço, ou qualquer outro procedimento, e o meu saco vai explodir! Me dá essa merda que eu assino! Não, eu vou assinar. Reconheço que errei, não tenho por que não assinar.
- O senhor vai recebê-las de qualquer jeito pelo correio, caso não queira assinar.
- Já falei que vou assinar, tira a caneta da mão do aprendiz-de-Lula e me dá logo essa porra! De forma alguma, eu assino.
Consegui tomar a caneta do Poncherello, que, além de analfabeto, tinha problemas de coordenação motora e ficou se enrolando todo para tirar o papel-carbono do meio das duas vias. Assinei no local indicado e devolvi a caneta. Aí, o Poncha resolveu falar (o que eu já tinha dúvidas se ele era capaz de fazer).
- Além de o senhor ter atravessado o farol vermelho, fez uma conversão proibida, porque não pode entrar na Paulista à esquerda vindo da Brigadeiro.
- Entendi. Eu assinou a outra também... Ainda bem que eu sou extremamente educado, senão vocês iam me multar por desacato à autoridade. Se fosse o caso eu ia me recusar a pagar inteira: o John até que foi profissional, mas esse Poncherello tá de lascar! Toma, enfia no cu esse canhoto...
- A segunda via é do senhor.
E lá se foram mais uns dois minutos para que Poncha, o malabarista escritor, conseguisse destacar as minhas vias. Com as cópias das infrações assinadas e meus documentos de volta, fui autorizado a voltar para o carro e dirigir com cuidado.
- Sr. Marcio, obrigado, lembre-se que o seu carro é uma arma! 10 segundos podem fazer muita diferença.
- Tem toda razão. Obrigado. E deixa eu ir logo embora que já perdi até o tesão de passear de carro. Aproveita para matricular o Poncherello no Mobral. Eu sei que fiz merda, mas a pior parte é essa rotina de conscientização.
Entrei no carro, dei seta, voltei para a Paulista. E não fiquei, pela primeira vez na vida, na faixa da direita, disputando espaço dos ônibus. Vai que o Poncha consegue escrever melhor em cima da moto... Não sei. Ainda acho que se eu tivesse sido abordado pela dupla do Chip's a história seria muito mais interessante. E o Poncherello deve saber escrever direito...
Eu, brasileiro, solteiro, metido a malandro, achei que era safo e tentei "aproveitar o sinal". No meio do cruzamento, que é longo, os carros que vinham do Paraíso começaram a se mover e eu percebi que não conseguiria concluir a travessia, fazendo uma brusca virada à esquerda, na própria Paulista.
Como malandro só se dá bem no morro, no presídio ou no Congresso, e eu não pertenço a nenhum destes grupos profissionalizados de bandidos, tive um destino diferente. Logo atrás de mim, duas motos de policiais deram sirene e sinal para eu encostar. Quando já estava na faixa da direita, abri o vidro e recebi ordens para encostar no próximo bolsão, depois do ponto de ônibus.
- Documento do carro e carteira de habilitação.
- ...
- Sr. Marcio, o senhor já teve problema com a Polícia antes?
- Não, nunca.
- Desça do carro, por favor.
Ele me pediu para ficar longe do veículo, perto da grade de um portão. Pela primeira vez, me senti um desses sujeitos que são revistados na calçada. Não sei se porque sou caucasiano, mas o policial não chegou a me revistar, somente fez verificações dos meus dados pelo rádio. Não havia nada de errado, nem no carro, nem histórico na minha carteira, nem nada que fosse suspeito.
- ...
- Eu nem preciso dizer pro senhor o que o senhor fez, não é mesmo?
- Não. Eu sei que errei. Fui querer tentar "aproveitar o sinal" e...
- Por 10 segundos o senhor podia ter feito muita bobagem. Causado acidente, matado alguém. O carro é uma arma. Podia ter derrubado eu e o meu colega, atropelado um pedestre...
- ... Me multa e me deixa ir logo - pensei (sempre em itálico).
- Eu pedi pro senhor descer do carro porque é comum as pessoas que estão com carros furtados fugirem da gente no sinal. Mas não foi isso.
- ... Não foi, eu não roubei o carro, só quis economizar tempo e dei azar.
Enquanto eu ouvia o John me passar o sabão, o Poncherello, já com meus documentos na mão, preenchia um talonário de multas. E ele já estava há uns 10 minutos fazendo a ocorrência. Demorava tanto que já deixava o colega sem assunto, uma vez que este logo percebeu que eu não era mau elemento, apenas um cidadão de bem que havia feito uma cagada (graças a Deus, sem maiores consequências).
- O senhor viu esses dias o que aconteceu na TV? Com um sujeito que roubou um carro e fugiu da polícia?
- Não, não vi. O que foi? Me conta porque da próxima vez eu já sei como fugir...
- O sujeito atropelou dois policiais motorizados, depois continuou fugindo, atropelou mais dois policiais de moto, entrou na contramão, bateu em outro carro de polícia, e só parou porque ficou prensado contra um ônibus...
- Nossa, alguém se feriu? Melhor eu continuar sendo simpático. O que eu não preciso é causar emoções fortes ou demonstrar impaciência diante de um fato relevante para o oficial.
- Só escoriações leves...
- Tem gente que é tão do mal que não quer se entregar...
- ... Pois é, não desiste!
Enquanto o John improvisava e fazia sala para mim, em plena Paulista, o animal do Poncherello continuava olhando enigmático para o talonário. O que existe de tão desafiador naquele preenchimento?? E o homem-da-lei prosseguia na sua tentativa de puxar papo.
- Aqui na Paulista é muito perigoso em dia de feriado.
- É mesmo? Por quê? Bom, pelo menos você já viu que eu não sou bandido. Agora quer aliviar. Tudo bem, fiz cagada mesmo, tenho que aguentar quieto. Mas não pense que eu vou pedir pra dar um jeitinho, que eu assumo minhas merdas. Pede lá pro Poncherelo agilizar, vai...
- Tem muito turista, muita gente passeando, achando que como é feriado tá tranquilo. Os garotos sobem lá de baixo, do que seria uma favela, digamos, e sabem que são de menor, que não podem ir presos, aí passam aqui de bicicleta ou de skate e "batem" celulares, carteira, máquina fotográfica.
- Caramba... Porra, Poncherello, tem jeito?...
O Poncherello deve ter tido problemas na escola e não deve ter concluído a alfabetização. Porque não é possível que para copiar a porra da placa, um nome, e fazer um "X" em duas infrações gravíssimas o cara precisasse de tanto tempo. Mas precisava. E foi aí que eu percebi a capacidade de improvisação que a Corporação desenvolve em seus oficiais.
- O clima tá muito estranho, já era pra estar mais quente. O ser humano faz as coisas e acaba vendo as consequências...
- É, é o aquecimento global. O clima tá diferente mesmo. Quer dizer, agora eu vou ter que ouvir comentários sobre as intempéries vindo do narciso-vernize-de-farda. Multa, mas não fode...
- O verão já não foi verão direito, agora o inverno não termina...
- ... E a bicha-alada do seu amigo Poncherello aprendeu a escrever com o Tiririca, porque já faz 15 minutos que o animal de tetas está tentando me autuar e não acaba! É o tempo tá todo louco mesmo...
Finalmente, o Poncha recebeu uma luz de habilidade grafológica, talvez pela alma do Saramago que estivesse passando pela Paulista, e se aproximou com o talonário. Mas foi o John mesmo que fez as honras.
- Sr. Marcio, o senhor não é obrigado a assinar essas infrações.
- Tá louco! Se eu não assinar, é capaz do Poncherello ter que preencher meu endereço, ou qualquer outro procedimento, e o meu saco vai explodir! Me dá essa merda que eu assino! Não, eu vou assinar. Reconheço que errei, não tenho por que não assinar.
- O senhor vai recebê-las de qualquer jeito pelo correio, caso não queira assinar.
- Já falei que vou assinar, tira a caneta da mão do aprendiz-de-Lula e me dá logo essa porra! De forma alguma, eu assino.
Consegui tomar a caneta do Poncherello, que, além de analfabeto, tinha problemas de coordenação motora e ficou se enrolando todo para tirar o papel-carbono do meio das duas vias. Assinei no local indicado e devolvi a caneta. Aí, o Poncha resolveu falar (o que eu já tinha dúvidas se ele era capaz de fazer).
- Além de o senhor ter atravessado o farol vermelho, fez uma conversão proibida, porque não pode entrar na Paulista à esquerda vindo da Brigadeiro.
- Entendi. Eu assinou a outra também... Ainda bem que eu sou extremamente educado, senão vocês iam me multar por desacato à autoridade. Se fosse o caso eu ia me recusar a pagar inteira: o John até que foi profissional, mas esse Poncherello tá de lascar! Toma, enfia no cu esse canhoto...
- A segunda via é do senhor.
E lá se foram mais uns dois minutos para que Poncha, o malabarista escritor, conseguisse destacar as minhas vias. Com as cópias das infrações assinadas e meus documentos de volta, fui autorizado a voltar para o carro e dirigir com cuidado.
- Sr. Marcio, obrigado, lembre-se que o seu carro é uma arma! 10 segundos podem fazer muita diferença.
- Tem toda razão. Obrigado. E deixa eu ir logo embora que já perdi até o tesão de passear de carro. Aproveita para matricular o Poncherello no Mobral. Eu sei que fiz merda, mas a pior parte é essa rotina de conscientização.
Entrei no carro, dei seta, voltei para a Paulista. E não fiquei, pela primeira vez na vida, na faixa da direita, disputando espaço dos ônibus. Vai que o Poncha consegue escrever melhor em cima da moto... Não sei. Ainda acho que se eu tivesse sido abordado pela dupla do Chip's a história seria muito mais interessante. E o Poncherello deve saber escrever direito...
quarta-feira, abril 14, 2010
Saint Charles
Esta semana estou participando de um treinamento sobre como fazer negócios, patrocinado pela Accenture. É um curso que nos coloca à prova em simulações bastante realistas de situações comuns no nosso dia-a-dia: como entender os clientes, como reagir em situações adversas, que postura adotar diante de situações constrangedoras, etc. Um treinamento muito bem estruturado, interessante e útil no meu trabalho.
Mas a parte que mais merece destaque é o fato de ser num centro de treinamento global, que fica na cidade de Saint Charles, subúrbio de Chicago. A localização e o fato de a empresa ser norte-americana dão o tom das atividades: muitas simulações de vendas de projetos de consultoria, com interlocutores que são do C-Level de empresas americanas e se voluntariam a participar como "coachs" nesse treinamento.
A barreira cultural e da língua se somam aos demais desafios do curso. Em minha sala, há uma maioria de estadounidenses, muitos ingleses, alguns australianos e irlandeses, além de uma minoria de outros países (Cingapura, Índia). Eu sou um dos poucos da sala que não são nativos no idioma e acabam perdendo um pouco de informação nas interações. Eu até que falo bem o Inglês (e os nativos comentam isso), mas tenho um "handicap" natural por vir de outra cultura e não ter nascido falando inglês.
Ontem, durante uma das reuniões com um "cliente", o CIO de uma montadora americana, achei que tive um ótimo desempenho. Ao sair da sala, meus colegas que assistiram a simulação me cumprimentaram dizendo que havia sido muito boa minha atuação. Logo em seguida, fui chamado pelo "cliente" para fazer uma sessão de feedback. Ele olhou pra mim e disse que parecia que eu não estava natural, que estava processando algo na minha cabeça enquanto falava com ele e isso tinha passado falta de credibilidade. Em resumo, eu tinha falhado, em grande estilo e não tinha sequer notado (e meus colegas também não).
Ficou o aprendizado de que nas interações humanas, a percepção é a verdade. E nem sempre conseguimos expressar o que temos de melhor e ser entendidos claramente. Achei que tinha arrebentado e numa situação real num cliente, eu teria iniciado um processo irreversível. Relacionamento é tudo, em qualquer lugar do mundo.
E o "cliente" ainda me disse, pra terminar de me esculhambar: "e não use a barreira da língua como desculpa, porque você fala inglês melhor do que muitos nativos que eu conheço. Quando estiver na sala, falando comigo, deixe qualquer outro pensamento do lado de fora". Lição aprendida (ou não).
Mas a parte que mais merece destaque é o fato de ser num centro de treinamento global, que fica na cidade de Saint Charles, subúrbio de Chicago. A localização e o fato de a empresa ser norte-americana dão o tom das atividades: muitas simulações de vendas de projetos de consultoria, com interlocutores que são do C-Level de empresas americanas e se voluntariam a participar como "coachs" nesse treinamento.
A barreira cultural e da língua se somam aos demais desafios do curso. Em minha sala, há uma maioria de estadounidenses, muitos ingleses, alguns australianos e irlandeses, além de uma minoria de outros países (Cingapura, Índia). Eu sou um dos poucos da sala que não são nativos no idioma e acabam perdendo um pouco de informação nas interações. Eu até que falo bem o Inglês (e os nativos comentam isso), mas tenho um "handicap" natural por vir de outra cultura e não ter nascido falando inglês.
Ontem, durante uma das reuniões com um "cliente", o CIO de uma montadora americana, achei que tive um ótimo desempenho. Ao sair da sala, meus colegas que assistiram a simulação me cumprimentaram dizendo que havia sido muito boa minha atuação. Logo em seguida, fui chamado pelo "cliente" para fazer uma sessão de feedback. Ele olhou pra mim e disse que parecia que eu não estava natural, que estava processando algo na minha cabeça enquanto falava com ele e isso tinha passado falta de credibilidade. Em resumo, eu tinha falhado, em grande estilo e não tinha sequer notado (e meus colegas também não).
Ficou o aprendizado de que nas interações humanas, a percepção é a verdade. E nem sempre conseguimos expressar o que temos de melhor e ser entendidos claramente. Achei que tinha arrebentado e numa situação real num cliente, eu teria iniciado um processo irreversível. Relacionamento é tudo, em qualquer lugar do mundo.
E o "cliente" ainda me disse, pra terminar de me esculhambar: "e não use a barreira da língua como desculpa, porque você fala inglês melhor do que muitos nativos que eu conheço. Quando estiver na sala, falando comigo, deixe qualquer outro pensamento do lado de fora". Lição aprendida (ou não).
segunda-feira, fevereiro 01, 2010
Back to post
Voltei. Na verdade, voltei faz tempo, mas não estava postando porque estava sem NET. Na verdade, continuo sem NET, tenho assistido apenas os canais abertos usando uma antena plasmatic. Na verdade, tive de fazer um "gato" da minha própria conta da NET, mas só tenho Internet, porque eles não conseguiram instalar o cabeamento da TV. Na verdade, existe cabeamento nas paredes, mas não há acesso no móvel da TV para alcançar a caixa da parede que dá acesso ao cabo... sem acesso, nada de cabo, nada de instalação, nada de NET, daí o "gato". Puts, acho que vou viajar de novo e volto quando tudo estiver pronto...
De qq forma, está reiniciada a temporada de posts deste blog. Lá vem merda...
De qq forma, está reiniciada a temporada de posts deste blog. Lá vem merda...
quarta-feira, dezembro 02, 2009
Mais um para a coleção
Pois é. Eu tenho poucas manias, mas uma das conhecidas é meio incontrolável: meu apreço pela música em geral e, em particular, por instrumentos musicais diferentes.
Como não podia deixar de ser, estando na terra do Fado, fui praticamente obrigado a adquirir uma guitarra portuguesa.
Pra quem não conhece (e eu era um destes), não se trata de uma variação da guitarra (ou violão), nem é um bandolim metido a besta. O instrumento tem timbre característico (do fado, só quem já ouviu entende, algo que lembra um misto de bandolim, banjo e cravo) e afinação absolutamente diferente de qualquer outro (apenas pra constar, são 6 cordas duplas, como segue: Si, Lá, Mi, Si, La, Ré).
Pode parecer bobagem pra vocês, mas estou feliz com meu novo brinquedo. Ainda não sei tocar, mas já estou todo animado. Olha ela aí embaixo...
Como não podia deixar de ser, estando na terra do Fado, fui praticamente obrigado a adquirir uma guitarra portuguesa.
Pra quem não conhece (e eu era um destes), não se trata de uma variação da guitarra (ou violão), nem é um bandolim metido a besta. O instrumento tem timbre característico (do fado, só quem já ouviu entende, algo que lembra um misto de bandolim, banjo e cravo) e afinação absolutamente diferente de qualquer outro (apenas pra constar, são 6 cordas duplas, como segue: Si, Lá, Mi, Si, La, Ré).
Pode parecer bobagem pra vocês, mas estou feliz com meu novo brinquedo. Ainda não sei tocar, mas já estou todo animado. Olha ela aí embaixo...
domingo, setembro 27, 2009
Alternância de gerações
Outro dia estávamos falando sobre modismos relacionados a barba, bigode, cavanhaque, pêra, costeleta e outras bizarrices que os homens deixam na cara. Isso mudo de tempos em tempos e aquilo que já foi bacana logo vira estranho, depois normal de novo.
Por exemplo, vejam o caso da barba. Quando eu era adolescente, as meninas achavam estranho porque era incomum. Como eu era um babaca naquele tempo, que preferia ser considerado diferente do que aproveitar as vantagens de ser main stream, eu tive barba com dezessete e dezoito.

Depois, ao vinte e poucos, ter barba inteira era repudiado, mas as mulheres gostavam de cavanhaque. Nessa fase eu já havia parado de querer ser diferente, então adotei o visual do momento. Rendeu alguns frutos - havia garotas que diziam que dava um ar cafajeste, que era bem quisto.

Lembro que cheguei a ensaiar um meio-termo, entre a barba e o cavanhaque, um misto de Chuck Norris com o negativo do Marcelo Nova. Não deu certo, mas, claro, eu dei uma insistida.

No quesito pentado, fiz também todo tipo de cagada. Acho que o destaque, com direito a prêmio na categoria "and the 'hot vomit Oscar' goes to" foi sem dúvida para os mullets.


Agora, o que é realmente curioso é que as modas voltam. E acho que hoje, ter aquele visual dos 18 anos (barba e cabelo mal cortados e cara de meio sujo) seria mais atrativo do que qualquer outra preparação. Ou melhor, quase qualquer outra. Porque o campeão de bilheteria sempre será aquela foto de criança, que dispara um "ai que fofo" em qualquer ser do sexo feminino. O que será que aconteceu?
Por exemplo, vejam o caso da barba. Quando eu era adolescente, as meninas achavam estranho porque era incomum. Como eu era um babaca naquele tempo, que preferia ser considerado diferente do que aproveitar as vantagens de ser main stream, eu tive barba com dezessete e dezoito.

Depois, ao vinte e poucos, ter barba inteira era repudiado, mas as mulheres gostavam de cavanhaque. Nessa fase eu já havia parado de querer ser diferente, então adotei o visual do momento. Rendeu alguns frutos - havia garotas que diziam que dava um ar cafajeste, que era bem quisto.

Lembro que cheguei a ensaiar um meio-termo, entre a barba e o cavanhaque, um misto de Chuck Norris com o negativo do Marcelo Nova. Não deu certo, mas, claro, eu dei uma insistida.

No quesito pentado, fiz também todo tipo de cagada. Acho que o destaque, com direito a prêmio na categoria "and the 'hot vomit Oscar' goes to" foi sem dúvida para os mullets.

Agora, o que é realmente curioso é que as modas voltam. E acho que hoje, ter aquele visual dos 18 anos (barba e cabelo mal cortados e cara de meio sujo) seria mais atrativo do que qualquer outra preparação. Ou melhor, quase qualquer outra. Porque o campeão de bilheteria sempre será aquela foto de criança, que dispara um "ai que fofo" em qualquer ser do sexo feminino. O que será que aconteceu?
segunda-feira, agosto 31, 2009
Inveja cibernética
Entre ontem e hoje recebi mais de 50 (sem exagero) scraps no Orkut de desconhecidos criticando minha comunidade ("A menor comunidade do Orkut"). Achei que fosse algum tipo de golpe pra me fazer clicar em alguma coisa e infestar minha máquina com vírus H1N1 suínos internéticos. Mas parece que não. O que aconteceu foi que algum adolescente achou a comunidade e espalhou pros amigos e estes pros amigos and so on.
Que gente besta. Falavam coisas duras como "get a life", "você é um ridículo". Não que isso não seja verdade, mas pra que tanta mágoa de um desconhecido? Deve ser inveja cibernética, é isso.
Que gente besta. Falavam coisas duras como "get a life", "você é um ridículo". Não que isso não seja verdade, mas pra que tanta mágoa de um desconhecido? Deve ser inveja cibernética, é isso.
segunda-feira, agosto 10, 2009
W.O. (again)
Já terminei um namoro uma vez por W.O.
Como? É simples. Você liga, a pessoa não atende. Você deixa recado, a moça não retorna. Você manda e-mail pra saber se tá tudo bem, não vem resposta. Você pergunta pra amiga que trabalha com ela, mas ela também não tem falado com a amiga.
Ou seja, após uma semana nessa situação, foi iniciada a contagem regressiva. Quinta-feira é o deadline para mais um W.O...
A partir de quinta, poderei voltar a cantar a canção abaixo (um clássico!)...
Como? É simples. Você liga, a pessoa não atende. Você deixa recado, a moça não retorna. Você manda e-mail pra saber se tá tudo bem, não vem resposta. Você pergunta pra amiga que trabalha com ela, mas ela também não tem falado com a amiga.
Ou seja, após uma semana nessa situação, foi iniciada a contagem regressiva. Quinta-feira é o deadline para mais um W.O...
A partir de quinta, poderei voltar a cantar a canção abaixo (um clássico!)...
segunda-feira, abril 20, 2009
A essência do pensamento cotidiano
O título acima é do meu livro de crônicas, publicado em 2002, escrito em 1995. Foi difícil publicá-lo e não foi uma publicação de fato, já que eu banquei a produção e a festa e não houve tiragem posta à venda em lugar algum - os exemplares produzidos limitaram-se à noite de autógrafos.
Mas como já foi mesmo e pelo menos os amigos estavam todos lá - sempre os amigos pra salvar a gente - costumo dizer que publiquei, mesmo sendo tecnicamente falso. E agora, por outra sugestão de amigo, vou postar as histórias todas no blog que fiz na época para contar a saga da publicação.
Clique aqui pra ler o livro na integra.
Mas como já foi mesmo e pelo menos os amigos estavam todos lá - sempre os amigos pra salvar a gente - costumo dizer que publiquei, mesmo sendo tecnicamente falso. E agora, por outra sugestão de amigo, vou postar as histórias todas no blog que fiz na época para contar a saga da publicação.
Clique aqui pra ler o livro na integra.
domingo, abril 05, 2009
15 anos de novo
Eu queria voltar no tempo e ter 15 anos de novo. Há coisas ruins nessa ideia - inseguranças, primeiras-vezes, acnes -, mas há outras coisas espetaculares - mais energia, menos peso, mais planos, mais expectativas, menos medos, menos a perder... e, no meu caso, uma coisa muito especial: agilidade, técnica aguçada e muito tempo pra estudar violão todos os dias.
Essa nostalgia toda se deve ao fato de eu estar tentando aprender violão flamenco. Não aquelas bobagens pseudoflamencas que alguns violonistas capengas fazem. Estou falando sobre the real stuff. E posso dizer: é foda, muito foda, sobretudo quando não se tem mais 15 anos.
Se alguém se quiser sentir pequeno e miserável como eu, veja o mestre Paco no vídeo abaixo. Ah, como eu queria voltar no tempo...
Essa nostalgia toda se deve ao fato de eu estar tentando aprender violão flamenco. Não aquelas bobagens pseudoflamencas que alguns violonistas capengas fazem. Estou falando sobre the real stuff. E posso dizer: é foda, muito foda, sobretudo quando não se tem mais 15 anos.
Se alguém se quiser sentir pequeno e miserável como eu, veja o mestre Paco no vídeo abaixo. Ah, como eu queria voltar no tempo...
sexta-feira, março 13, 2009
Maravilhas da mala-direta (ou Crise de identidade)
Recebi uma mala-direta (e o termo "mala" nesse caso pode ser usado pra descrever também a encheção de saco) interessante. Por mais que eu entenda as dificuldades de se manter um cadastro atualizado e limpo, esta carta superou qualquer expectativa de desorganização.
Dizia assim:
Mais adiante, o texto seguia:
E no anteverso da correspondência, a coerência continuava:
Não que eu me impressione com malas-diretas nominais, mas acho que a Abril perdeu uma grande oportunidade de me provocar alguma simpatia. Se a qualidade das revistas repetir a do cadastro, eu tô ferrado!
Mas a parte mais interessante mesmo foi a informação do boleto (sim, porque hoje em dia nego manda primeiro a conta, depois vai ver que produto ele pode entregar):
E como toda bosta só está completa com um chantilly por cima, o porteiro do meu prédio, ao fazer a triagem da correspondência recebida, escreveu a tinta no canto do envelope, pra não deixar dúvida:
Depois reclamam quando a gente tem crise de identidade...
Dizia assim:
Ap 112,
Você vive em São Paulo.
E é vizinho do mundo inteiro.
Mais adiante, o texto seguia:
Temos um grande respeito por você, Ap 112, por ser uma pessoa especial e por residir na mesma São Paulo com 455 anos de hitória. (...)
E no anteverso da correspondência, a coerência continuava:
Ap 112
Av xxxxxx, 277 - Ap 112
Indianopolis
xxxxx-xxx - São Paulo - SP
Não que eu me impressione com malas-diretas nominais, mas acho que a Abril perdeu uma grande oportunidade de me provocar alguma simpatia. Se a qualidade das revistas repetir a do cadastro, eu tô ferrado!
Mas a parte mais interessante mesmo foi a informação do boleto (sim, porque hoje em dia nego manda primeiro a conta, depois vai ver que produto ele pode entregar):
Valor: 47,43
Vencimento: 27/03/2009
Sacado: Ap 112
E como toda bosta só está completa com um chantilly por cima, o porteiro do meu prédio, ao fazer a triagem da correspondência recebida, escreveu a tinta no canto do envelope, pra não deixar dúvida:
Ap 112
Depois reclamam quando a gente tem crise de identidade...
sexta-feira, março 06, 2009
Intolerância, modos e ironia na educação de adolescentes
O Friburgo era um colégio bastante tolerante. Algumas vezes, até demais. Mas os professores, via de regra, consentiam com um volume considerável de conversas paralelas de alguns alunos mais levados, como o Duda, o Rafa, o Fabio etc.
Eu, como sempre, mantinha uma postura responsável e inatacável, fazendo comentários pertinentes e adequados ao contexto. (Se você que me lê não tem sensibilidade à ironia, pare agora pois a coisa tende a piorar).
Mas mesmo os seres humanos sensacionais como eu têm seus deslizes. Numa aula cansativa de Biologia, com a professora e língua-presa Selma, havia um contexto qualquer pra eu andar pela sala. Sabe uma dessas situações em que claramente o professor quer que a gente ande pela sala? Então, numa dessas caminhadas, sem querer, dei uma topada séria no pé de uma carteira e, numa atitude digna de qualquer cidadão correto, dei um grito de fúria e dor.
- Puta que me pariu! Caralho!
A Selma, professora, lingua-presa e coxa-creme, ficou possessa com minha interjeição e me repreendeu duramente.
- Marcio, você acha que está na sua casa? Ninguém aqui é obrigado a ouvir seus maus modos!
- Mas, Selma, eu tropecei na mesa e gritei de dor...
- Não me interessa, na próxima você vai pra Diretoria!
A Diretora era a Dayse. Não lembro se Dayse ou Daysi - ou talvez Daisy - mas sei que era com ipsilon. A Daysi era até bastante calma, mas a gente tinha medo da autoridade dela. Ela tinha o cabelo tingido de roxo, o que a deixava parecida com o Walter Dávila. E provavelmente porque a gente sabia que as pessoas que têm ipsilon no nome e parecem o Walter Dávila são instáveis e imprevisíveis, ficávamos quietos diante da ameaça de visitar a Daisy.
No entanto, eu havia ficado inconformado com a bronca. Ora, logo eu que sempre fui um espetáculo de ser humano, vou levar uma lambada daquelas publicamente, apenas por ter proferido uma interjeição de dor? Aquilo nem era um palavrão dado o contexto.
Então, aproveitei-me de outra oportunidade de dar um passeio pela classe e simulei uma nova pancada na mesa. Desta vez, no entanto, adequei o linguajar aos bons modos esperados pela Selma, mas de forma que ela percebesse a incoerência de não usar palavrões diante de um dedo latejante. Logo após a topada simulada, esbravejei como se cuspisse a frase toda numa só palavra:
- Ai-minha-nossa-senhora-valei-me-de-vossa-benevolência-divina!
- Marcio, já pra Dayzzzy!! - com voz de língua-presa.
- Mas, Selma, eu não falei palavrão nenhum!
Infelizmente, a Selma não captou minha ironia. Na verdade, captou, mas não gostou da atitude. Tentei relatar o fato com riqueza de detalhes para a Dayse, mas ela não me apoiou, passou-me um 'sabão' e me fez ficar o resto da aula na Diretoria.
Nunca entendi porque tamanha intolerância da Selma diante de uma pequena ironiazinha. Havia uma afirmação importante por trás daquilo que pra ela parecia apenas um desaforo. Já da Daisey, o que esperar? Ela tava muito parecida com o Walter Dávila naqueles dias. Acho até que houve um momento em que a ouvir dizer "sábo-lho!", mas isso deve ter sido apenas delírio da minha mente influenciado por sua imagem.
O que importa é que esse episódio me serviu de lição. Aprendi que não devemos ironizar nossos educadores. O melhor comportamento é imitá-los pelas costas ou ridicularizar suas características através de piadas sarcásticas, mas sempre de forma velada. (O processo educacional dos adolescentes da minha geração era mesmo incrível, não acham?)
Eu, como sempre, mantinha uma postura responsável e inatacável, fazendo comentários pertinentes e adequados ao contexto. (Se você que me lê não tem sensibilidade à ironia, pare agora pois a coisa tende a piorar).
Mas mesmo os seres humanos sensacionais como eu têm seus deslizes. Numa aula cansativa de Biologia, com a professora e língua-presa Selma, havia um contexto qualquer pra eu andar pela sala. Sabe uma dessas situações em que claramente o professor quer que a gente ande pela sala? Então, numa dessas caminhadas, sem querer, dei uma topada séria no pé de uma carteira e, numa atitude digna de qualquer cidadão correto, dei um grito de fúria e dor.
- Puta que me pariu! Caralho!
A Selma, professora, lingua-presa e coxa-creme, ficou possessa com minha interjeição e me repreendeu duramente.
- Marcio, você acha que está na sua casa? Ninguém aqui é obrigado a ouvir seus maus modos!
- Mas, Selma, eu tropecei na mesa e gritei de dor...
- Não me interessa, na próxima você vai pra Diretoria!
A Diretora era a Dayse. Não lembro se Dayse ou Daysi - ou talvez Daisy - mas sei que era com ipsilon. A Daysi era até bastante calma, mas a gente tinha medo da autoridade dela. Ela tinha o cabelo tingido de roxo, o que a deixava parecida com o Walter Dávila. E provavelmente porque a gente sabia que as pessoas que têm ipsilon no nome e parecem o Walter Dávila são instáveis e imprevisíveis, ficávamos quietos diante da ameaça de visitar a Daisy.
No entanto, eu havia ficado inconformado com a bronca. Ora, logo eu que sempre fui um espetáculo de ser humano, vou levar uma lambada daquelas publicamente, apenas por ter proferido uma interjeição de dor? Aquilo nem era um palavrão dado o contexto.
Então, aproveitei-me de outra oportunidade de dar um passeio pela classe e simulei uma nova pancada na mesa. Desta vez, no entanto, adequei o linguajar aos bons modos esperados pela Selma, mas de forma que ela percebesse a incoerência de não usar palavrões diante de um dedo latejante. Logo após a topada simulada, esbravejei como se cuspisse a frase toda numa só palavra:
- Ai-minha-nossa-senhora-valei-me-de-vossa-benevolência-divina!
- Marcio, já pra Dayzzzy!! - com voz de língua-presa.
- Mas, Selma, eu não falei palavrão nenhum!
Infelizmente, a Selma não captou minha ironia. Na verdade, captou, mas não gostou da atitude. Tentei relatar o fato com riqueza de detalhes para a Dayse, mas ela não me apoiou, passou-me um 'sabão' e me fez ficar o resto da aula na Diretoria.
Nunca entendi porque tamanha intolerância da Selma diante de uma pequena ironiazinha. Havia uma afirmação importante por trás daquilo que pra ela parecia apenas um desaforo. Já da Daisey, o que esperar? Ela tava muito parecida com o Walter Dávila naqueles dias. Acho até que houve um momento em que a ouvir dizer "sábo-lho!", mas isso deve ter sido apenas delírio da minha mente influenciado por sua imagem.
O que importa é que esse episódio me serviu de lição. Aprendi que não devemos ironizar nossos educadores. O melhor comportamento é imitá-los pelas costas ou ridicularizar suas características através de piadas sarcásticas, mas sempre de forma velada. (O processo educacional dos adolescentes da minha geração era mesmo incrível, não acham?)
segunda-feira, março 02, 2009
Azul Mozart
sábado, fevereiro 28, 2009
quarta-feira, fevereiro 25, 2009
Poema degustativo: saboreiem com parcimônia
Nessa de resgatar meus poemas antigos, encontrei um com temática pseudogastronômica e crítica sobre a existência. Vejam lá se presta...
São Paulo, 6 de Janeiro de 2003
Receita para a vida
— Uma orgia gastronômica em prol do bem
encontre um copo,
de preferência largo e alto,
encha-o até a boca de certezas e convicções
e reserve, noutro recipiente, apenas uma dúvida
(uma só, que apesar de única pode ser a gota)
em uma vasilha grande e rasa,
untada com medo e farinha,
distribua punhados de insegurança
(guardando um bom espaço entre os montinhos):
veja como crescem e se fundem numa só mistura
que pode até estraçalhar a porcelana
leve ao forno pré-aquecido por uma paixão doentia
uma terrina com um polpetone de carinho;
cubra-o com ciúme à bolonhesa
e deixe cozer por uma vida:
o molho ferve, mas a carne permanece crua
ponha, enfim, os talheres à mesa:
à direita, faca de dois gumes
(para cortar comida e olho-gordo);
à esquerda, um tridente como garfo
(para aguçar a gula do glutão);
no centro, o prato principal: a vida
tempere-a com ervas e especiarias,
sálvia, manjericão, loro, cominho
—coentro, não!!!—
e engula-a sem mastigar,
dilatando a goela para que ela entre sem partir
como sobremesa,
ingira bons frutos de uma árvore frondosa
sob sua sombra;
nutra a alma com os instintos da razão
e não alimente os (instintos) animais
São Paulo, 6 de Janeiro de 2003
A troca e o meu bambino
Madrugada da quarta-feira de cinzas. Voltei do cinema, depois de ver A troca, com a Angelina Jolie e o John Malkovitch. Filmão, daqueles que deixa a gente mais angustiado do que triste (embora a história seja de matar) e felizes por ver que a Angelina não apenas continua linda, mas virou uma grande atriz. Ela está tão bem e tão íntegra no papel, que nem parei pra pensar nela como uma mulher (im)possível e desejável - ficou sendo apenas uma mãe, desesperada para reencontrar o filho.
Talvez por conta do tema do filme (perda de um filho), voltei pra casa e lembrei de um poema que escrevi anos atrás. É sobre meu filho, que ainda não existe. Toda vez que leio algum texto meu tenho vontade de mudar, mas por uma questão de conceito, resisto. Segue abaixo o texto original, do jeito que deixei em 2002, quando o escrevi. Espero que gostem...
São Paulo, 22 de Outubro de 2002
Talvez por conta do tema do filme (perda de um filho), voltei pra casa e lembrei de um poema que escrevi anos atrás. É sobre meu filho, que ainda não existe. Toda vez que leio algum texto meu tenho vontade de mudar, mas por uma questão de conceito, resisto. Segue abaixo o texto original, do jeito que deixei em 2002, quando o escrevi. Espero que gostem...
Bambino por vir
— Para meu filho (em fase de pré-projeto)
ele é gordinho e levado,
como o pai infante,
o rosto redondo e corado,
como do pai adolescente,
a pele branca, alabastro,
como do pai de sempre...
(da mãe lhe são os olhos d’água
e tudo que traz dentro do peito e cabeça...)
adora música
(herança congênita ou genética?),
e sorri em minha direção,
depois da fralda limpa,
sorriso lindo,
alegria como dentes pois estes não os tem,
e me abraça apertado,
como o nó que me põe na garganta
quando pronuncia (errado) meu nome
ou quando dança (desengonçado) ao meu som preferido...
ele é forte —saúde férrea!
é valente —coragem de aço!
é lindo —beleza cristalina da pedra mais preciosa que houver...
é tudo isso e mais aquilo que exista
de bom,
de positivo,
de sublime,
pois é meu filho!
que ainda não vive,
não habita minha casa,
nem me tira o sono na noite em que deste mais preciso...
pode ser o oposto do que digo ser,
ser até o contrário do que quero crer,
pode mesmo não ser ele, mas ela,
e ainda será divino,
o perfeito bambino,
que um dia pretendo ter...
(por hora,
é ele que me beija a testa antes de eu ir dormir...)
São Paulo, 22 de Outubro de 2002
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