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domingo, julho 31, 2011

Post-mortem post

Sobre Amy Winehouse,
sem que qualquer dúvida cause,
posso afirmar com categoria
acerca de sua talentosa cantoria:
A finada cantava afinada
- que afinada era a finada!

quinta-feira, setembro 23, 2010

Tô vendo tudo!



O Meu País
Zé Ramalho
Composição: Livardo Alves - Orlando Tejo - Gilvan Chaves


Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

Um país que crianças elimina
Que não ouve o clamor dos esquecidos
Onde nunca os humildes são ouvidos
E uma elite sem deus é quem domina
Que permite um estupro em cada esquina
E a certeza da dúvida infeliz
Onde quem tem razão baixa a cerviz
E massacram-se o negro e a mulher
Pode ser o país de quem quiser
Mas não é, com certeza, o meu país

Um país onde as leis são descartáveis
Por ausência de códigos corretos
Com quarenta milhões de analfabetos
E maior multidão de miseráveis
Um país onde os homens confiáveis
Não têm voz, não têm vez, nem diretriz
Mas corruptos têm voz e vez e bis
E o respaldo de estímulo incomum
Pode ser o país de qualquer um
Mas não é com certeza o meu país

Um país que perdeu a identidade
Sepultou o idioma português
Aprendeu a falar pornofonês
Aderindo à global vulgaridade
Um país que não tem capacidade
De saber o que pensa e o que diz
Que não pode esconder a cicatriz
De um povo de bem que vive mal
Pode ser o país do carnaval
Mas não é com certeza o meu país

Um país que seus índios discrimina
E as ciências e as artes não respeita
Um país que ainda morre de maleita
Por atraso geral da medicina
Um país onde escola não ensina
E hospital não dispõe de raio-x
Onde a gente dos morros é feliz
Se tem água de chuva e luz do sol
Pode ser o país do futebol
Mas não é com certeza o meu país

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

Um país que é doente e não se cura
Quer ficar sempre no terceiro mundo
Que do poço fatal chegou ao fundo
Sem saber emergir da noite escura
Um país que engoliu a compostura
Atendendo a políticos sutis
Que dividem o brasil em mil brasis
Pra melhor assaltar de ponta a ponta
Pode ser o país do faz-de-conta
Mas não é com certeza o meu país

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

segunda-feira, junho 01, 2009

As quatro estações do destino (ou Apocaliptica)

a sina é a primavera das estações do destino,
a que inicia um ciclo de incertezas e perigos:
para uns é regra,
para outros, senão.
mas todos convêm que sempre existe um senão.
se o sujeito distrai, descuida,
a sina desmantela as folhas, o caule e a muda.
— a sina é coisa que não se muda.

o acaso é um guri bem matreiro,
apronta o que pode com as gentes:
cutuca de um lado,
aperta do outro,
devagarinho chega aonde quer.
e quando se dá conta,
perdeu-se um amigo, um noivado, uma vida.
— o acaso pode acabar com uma vida.

a sorte é irmã caçula do acaso.
tem jeito de boazinha, a dissimulada:
finge que é benção,
que é graça divina,
redenção para o bom samaritano.
mas quando se olha bem no olho da bruta,
brota um gosto de fel, de saliva de cobra, de lama.
— a sorte pode levar o sujeito à lama.

o azar é o primogênito da família
dos quatro irmãos de má conduta:
vai direto ao ponto,
não tem firula.
se pode chutar a cabeça, ele chuta!
e não tem papo de veja bem, lero-lero.
o azar é maldito no começo, no meio e no fim.
— o azar quase sempre é o fim.

terça-feira, maio 19, 2009

Ganhei (perdi) meu dia...

Já que o "blog é o novo divã" (plagiando uma amiga minha)...
Já que quando o urubu resolve sentar no nosso ombro a gente tem que esperar ele terminar de cagar...
Já que uma desgraça nunca vem só...
... deixa eu aproveitar pra desabafar as mágoas de uma vez!
Quem sabe se assim eu amanhã levante melhor...

É que eu perdi de novo esta semana. Como diz o ditado: "azar nos negócios, desgraça no amor". A mulher que eu havia planejado, durante a semana passada, encontrar nesta semana após longa data, teve de viajar pro Rio e passar a semana toda. Tivemos alguns desencontros como esse antes e ela costuma se casar nessas ocasiões. Não é só nas negociações imobiliárias que eu perco o timing.

E pra encerrar de vez esta safra de azares, vou citar o poeta (Drummond*):

Ganhei (perdi) meu dia.
E baixa a coisa fria
também chamada noite, e o frio ao frio
em bruma se entrelaça, num suspiro.

(...) eis que assisto
a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo
de me tornar planície em que já pisam
servos e bois e militares em serviço
da sombra, e uma criança
que o tempo novo me anuncia e nega (...)


(*) Trecho de "Elegia", poema clássico do autor, que sempre lembro quando o corvo pousa no meu ombro. Pois é, minha memória tem flashes de uma época em que ela funcionava bem...

sábado, maio 02, 2009

Astronomia

— Melancolia nostálgica


quando menino,
fitava demoradamente o céu estrelado
sempre em busca de uma estrela cadente
de brilho raro, embora efêmero.
sobre ela eram mil as estórias de graças alcançadas
—sobre as outras, só se sabia a Astronomia.

varrendo o firmamento
em busca do sonho cadente,
desperdiçava o espetáculo evidente
do Cruzeiro do Sul,
das Três Marias
e das pequenas luzes de brilho intenso
que compõem a constelação de Escorpião.

assim seguiram-se os anos:
o mistério ofuscando a obviedade;
a abundância fomentando a indiferença.

hoje,
quando o ar metropolitano oculta a imensidão astral
e nada se vê através da calota cinzenta,
o que me conforta o espírito
não é a imaginação das tais estrelas
em queda sobre a linha do horizonte,
mas a lembrança saudosa
do Cruzeiro,
das Marias,
e do rosa-avermelhado de Antares
escondidos atrás da cortina de fumaça.


Marcio Giachetta Paulilo
São Paulo, 01 de Julho de 2002

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Poema degustativo: saboreiem com parcimônia

Nessa de resgatar meus poemas antigos, encontrei um com temática pseudogastronômica e crítica sobre a existência. Vejam lá se presta...

Receita para a vida
— Uma orgia gastronômica em prol do bem

encontre um copo,
de preferência largo e alto,
encha-o até a boca de certezas e convicções
e reserve, noutro recipiente, apenas uma dúvida
(uma só, que apesar de única pode ser a gota)

em uma vasilha grande e rasa,
untada com medo e farinha,
distribua punhados de insegurança
(guardando um bom espaço entre os montinhos):
veja como crescem e se fundem numa só mistura
que pode até estraçalhar a porcelana

leve ao forno pré-aquecido por uma paixão doentia
uma terrina com um polpetone de carinho;
cubra-o com ciúme à bolonhesa
e deixe cozer por uma vida:
o molho ferve, mas a carne permanece crua

ponha, enfim, os talheres à mesa:
à direita, faca de dois gumes
(para cortar comida e olho-gordo);
à esquerda, um tridente como garfo
(para aguçar a gula do glutão);
no centro, o prato principal: a vida

tempere-a com ervas e especiarias,
sálvia, manjericão, loro, cominho
—coentro, não!!!—
e engula-a sem mastigar,
dilatando a goela para que ela entre sem partir

como sobremesa,
ingira bons frutos de uma árvore frondosa
sob sua sombra;
nutra a alma com os instintos da razão
e não alimente os (instintos) animais

São Paulo, 6 de Janeiro de 2003

A troca e o meu bambino

Madrugada da quarta-feira de cinzas. Voltei do cinema, depois de ver A troca, com a Angelina Jolie e o John Malkovitch. Filmão, daqueles que deixa a gente mais angustiado do que triste (embora a história seja de matar) e felizes por ver que a Angelina não apenas continua linda, mas virou uma grande atriz. Ela está tão bem e tão íntegra no papel, que nem parei pra pensar nela como uma mulher (im)possível e desejável - ficou sendo apenas uma mãe, desesperada para reencontrar o filho.

Talvez por conta do tema do filme (perda de um filho), voltei pra casa e lembrei de um poema que escrevi anos atrás. É sobre meu filho, que ainda não existe. Toda vez que leio algum texto meu tenho vontade de mudar, mas por uma questão de conceito, resisto. Segue abaixo o texto original, do jeito que deixei em 2002, quando o escrevi. Espero que gostem...

Bambino por vir
— Para meu filho (em fase de pré-projeto)

ele é gordinho e levado,
como o pai infante,
o rosto redondo e corado,
como do pai adolescente,
a pele branca, alabastro,
como do pai de sempre...
(da mãe lhe são os olhos d’água
e tudo que traz dentro do peito e cabeça...)

adora música
(herança congênita ou genética?),
e sorri em minha direção,
depois da fralda limpa,
sorriso lindo,
alegria como dentes pois estes não os tem,
e me abraça apertado,
como o nó que me põe na garganta
quando pronuncia (errado) meu nome
ou quando dança (desengonçado) ao meu som preferido...

ele é forte —saúde férrea!
é valente —coragem de aço!
é lindo —beleza cristalina da pedra mais preciosa que houver...
é tudo isso e mais aquilo que exista
de bom,
de positivo,
de sublime,
pois é meu filho!

que ainda não vive,
não habita minha casa,
nem me tira o sono na noite em que deste mais preciso...
pode ser o oposto do que digo ser,
ser até o contrário do que quero crer,
pode mesmo não ser ele, mas ela,
e ainda será divino,
o perfeito bambino,
que um dia pretendo ter...

(por hora,
é ele que me beija a testa antes de eu ir dormir...)

São Paulo, 22 de Outubro de 2002